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Fael Primeiro conta sua história

Fael Primeiro conta sua história

Fael abre o jogo e fala de seu trabalho como artista plástico, cantor e compositor.

Quem mora em Salvador certamente já se deparou com alguma intervenção artística de Fael Primeiro. Sua arte embasada na cultura de matriz africana e que questiona temas presentes no seu cotidiano, estampa diversos muros da cidade.

Além disso, se você curte a noite soteropolitana, já deve ter dançado ao embalo de algum soud system do artista. Multitalentoso, o cantor, compositor e artista plástico fez suas primeiras obras em grafite no ano de 2001.

Natural de Salvador, a cidade sempre lhe foi musa inspiradora e seus trabalhos transpiram cultura local. Entrevistamos Fael em sua casa, próxima à praia, em uma tarde ensolarada. Em meio aos seus trabalhos espalhados pela varanda, falamos sobre estereótipos, religião, arte e seus novos empreendimentos.

Mercado BA: Fael, de 2001 pra cá o que mudou no seu trabalho e no cenário do grafite baiano?

Fael: Bom, meu trabalho, de 2001 até hoje, passou por diversas modificações. Do grafite, que era mais ligado à rua e ao hip hop, partiu para um cenário mais plural, no sentido de colocar outros estilos nele.

Hoje eu venho, cada vez mais, me adequando ao mundo da arte e da decoração. Estou muito focado nisso. Meu trabalho hoje, ganhou um pouco essa direção.

Cada vez mais eu vou me aperfeiçoando nisso, mas para mim é uma constante transformação. Metamorfose ambulante mesmo. No final da minha vida, não sei como meu trabalho vai estar, mas sei que vai estar sempre mudando. Essa é a ideia.

Mercado BA: Uma dúvida constante das pessoas que estão de fora do mundo artístico é a diferença entre grafite e pichação. Você consegue explicar melhor essa relação?

Fael: A pichação é uma manitestação que parte da escrita, da tipografia, e é mais ligada ao movimento punk. E o grafite, na verdade, se apropriou um pouco desse conceito com o tag na assinatura.

A pichação fica mais atrelada aos dizeres. Tanto que têm artistas usam para divulgar o nome, e outros usam como protesto. A diferença é que o grafite é o figurativo, a arte em si. Não que a pichação não tenha arte, mas eu acho que já parte mais pro manifesto, pro movimento da escrita. E isso é bom!

Mostra que a cidade está ativa. Mostra que tem gente de opiniões fortes diante do contexto, então acho que a participação dos dois no processo é importante. Não anulo nenhum. Não é porque sou do grafite que vou achar que a pichação é menor.

Em São Paulo, por exemplo, eu conheço grupos de pichadores que são totalmente envolvidos com a questão social e política, e são bem reconhecidos. É, também, um movimento forte e muito importante.

Mercado BA: Você já sofreu com o estereótipo de “pichador”?

Fael: Eu acho que os estereótipos são ligados à maneira que o artista se posiciona, e eu sempre me posicionei como um artista operário da arte, plural, mesmo usando o spray como ferramenta, então esse rótulo nunca coube pra mim. Sempre vem alguém com um comentário pejorativo, mas eu não costumo me preocupar com rótulos.

Mercado BA: Como você faz para lidar com a estigmatização atribuída ao artista?

Fael: Então… Essa questão com a arte, de visão julgadora ou pejorativa, eu nunca sofri diretamente e se um dia eu sofrer, não tenho como dar ouvidos a isso, até porque hoje eu me enquadro.

Não só pela minha afirmação, mas já tive provas disso com o meu social e comercial. Minha arte, hoje, vai além do grafite e do movimento em si. Eu sou considerado um artista contemporâneo da cidade, do Brasil e, agora, estou na caminhada para invadir outros países.

Mercado BA: Que conselho você dá para os jovens que estão começando a se inserir no mundo artístico?

Fael: Ah, cara, eu acho que se você está querendo ser artista, seja urbano ou de qualquer outro tipo, o maior segredo é perseverar. É realmente trabalhar duro, trabalhar forte, tanto questão poética, no conceito e na técnica quanto na visão e discurso.

Acho que o artista de hoje, além de ter muita força e muita garra, tem que ter muito pensamento positivo aliado ao auto empreendedorismo. Ser artista é muito difícil e precisa de garra. Lidar com as confusões sociais, mentais, e todo esse processo de mercado.

Geralmente o artista não quer se aliar àquilo que é capitalista, mas ele precisa de dinheiro, porque se não a coisa não gira. Tem que ter muito jogo de cintura, força e psicológico no lugar.

Acima de tudo, ter fé e muito trabalho. Tem que ser duro na queda e no discurso. Criar, além de exposição estética, personalidade forte em todos os aspectos.

Mercado BA: No seu trabalho existem muitos elementos voltados para os Orixás. Qual a influência das religiões de matriz africana no seu trabalho?

Fael: Cada vez mais eu tenho a oportunidade de estar vivendo minha espiritualidade e conseguindo aliar ela à minha arte. Isso tem me ajudado tanto na formação individual como na espiritual e artística.

Eu sou umbandista e acredito que toda essa inspiração vem de algum lugar espiritual, das entidades. Elas usam muito o artista para falar e trazer amor ao planeta. Essa é minha maior visão dentro do processo.

Estar lado a lado com a espiritualidade pra ser porta voz dessa mágica que é a arte aliada ao estilo de vida. Pra mim é só crescimento. Cada vez mais vem fazendo parte de mim.

Mercado BA: Você tem trabalhos espalhados por toda a cidade. Rio Vermelho, Comércio e Barra, por exemplo. Você tem algum que nutre um carinho em especial?

Fael: Sobre apego, eu não tenho muito. Não tenho as mais queridas. Sou muito realista com essa coisa de ser efêmero – e a arte é efêmera!.

Ela está ali, na rua, exposta a condições climáticas que podem influenciar na qualidade e no tempo que a tinta vai ficar, então ela pode sofrer vários danos e você tem que estar preparado.

Eu até tinha apego a uma obra que achava bem bonita: o desenho de um trompetista ali, na ladeira da Barra. Só que era um muro que abria pra um showroom, então eles tiveram que derrubar. É isso.

Quando coloco a obra na rua, não posso ter muito apego por saber que a obra é efêmera e pode chegar um momento em que ela vai sumir.

Mercado BA: Fael, sabemos que o grafite é uma forma de expressão artística, você pretende abrir alguma escola ou curso que ensine quem tem interesse em aprender a grafitar? Já temos escolas de música, mas não existe nada nesse seguimento.

Fael: Futuramente. Nesse momento estou focando em outros projetos, porém essa idéia de montar algo assim já passou pela minha cabeça, mas tenho que estruturar melhor.

Depois da entrevista, acompanhamos Fael até um muro próximo à sua casa. Ele já havia escolhido um novo painel para a sua arte, mas antes que qualquer eventualidade o fizease sumir, registramos todo o processo de criação da obra.

Fael Primeiro

Fael Primeiro

Começo do trabalho artístico de Fael Primeiro feito próximo a sua casa em Stella Maris.
Fotos: Taís Vieira

Fael Primeiro

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Resultado final.

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